O problema do Brasil é o Brasil
Ou, para ser mais exato, a degeneração do setor público que quase enlouquece quem quer, simplesmente, viver do próprio trabalho
O único problema sério do Brasil é o Brasil mesmo — ou melhor, a maneira pela qual o poder público foi se desorganizando, ao longo dos anos, até chegar ao estado de degeneração maligna em que vive hoje. E daí que vem, de uma forma ou de outra, a maior parte das dificuldades que o país encontra para produzir, criar riquezas, crescer, empregar gente, gerar renda, investir, poupar, distribuir os benefícios da prosperidade — e, naturalmente, os problemas que derivam disso tudo. Na sua última edição, EXAME publicou uma reportagem de capa com uma exposição detalhada e objetiva da situação de insanidade que o Estado foi criando, cumulativamente, para a economia brasileira com a construção, passo a passo, de um sistema fiscal suicida, regulamentos que bloqueiam a produção, normas burocráticas incompreensíveis, e assim por diante. Criam-se e são mantidas disposições que negam ao Brasil condições elementares de competitividade. Produzir torna-se uma tarefa cada vez mais cara. O trabalho não é recompensado. A inação imposta pela desordem administrativa retarda, encarece ou simplesmente impede o desenvolvimento da infraestrutura — e, quanto mais carente ela é, maiores são as barreiras para a operação eficaz da economia. A máquina pública, em grande parte, fugiu ao controle dos governantes. Mais que tudo, talvez, essa anarquia é um insulto à inteligência. Ela se instalou e sobrevive sob a responsabilidade do governo — mas, perversamente, os resultados que gera não são os que o governo quer. Na maior parte das vezes, aliás, esses resultados são justamente o contrário dos que o governo gostaria de obter.
A reportagem mencionada acima contém, no fundo, um programa de governo — se conseguisse resolver metade das questões ali expostas, não mais que isso, a administração da presidente Dilma Rousseff entraria para a história como a autora de uma verdadeira revolução na lógica e na eficiência do aparelho público no Brasil. Faria muito mais, só aí, que a soma de todos os projetos estratégicos, planos estruturantes e bulas ideológicas atualmente à disposição de seu governo. Mas quem conseguiria chegar lá? A mera enumeração das aberrações impostas pelo Estado à economia nacional é um atestado de quanto o Palácio do Planalto, suas dezenas de ministérios e o restante do governo são impotentes diante de uma máquina burocrática que toma as decisões reais, não obedece nem presta contas a ninguém e torna-se a cada dia mais desvinculada dos seus chefes, do público que a sustenta e dos interesses do país.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com seus 85% de popularidade, não conseguiu nada contra ela. Quis encarar o bicho, foi ignorado e desistiu de qualquer valentia.
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